… Minhas escritas são uma perfeita tradução do silêncio que me ensurdece. Palavras desconexas soltas em vão. Esporádicos engasgos que por uma brevidade liberam todo aquele ar reprimido em meus pulmões. Tornam-me grande, extenso e puro pretexto. Pretexto para esconder a impotência que me afaga…

O silêncio da noite não tocava como ausência de som, mas em forma de um manto pesado e espesso, que envolvia a vasta clareira como uma mortalha de breu, sufocando até mesmo o menor dos lamentos. A única voz que ousava desafiar a poderosa soberana das trevas era o vento cortante, que rasgava o manto noturno como uma lâmina gélida. Impiedosa, fazia os troncos gemerem e as campinas chorarem pelas folhas despidas, que dançavam rumo ao túmulo a céu aberto da clareira, como uma mãe que, plena de desespero, via seu filho ser roubado prematuramente. Como amigos, impotentes, confrontando a inevitabilidade do destino, testemunhando a valsa entre a agitação e a inércia.
Acima das copas altas e retorcidas, a lua, como uma moeda pálida e gasta, pairava em um céu distante, atuando como testemunha impassível do espetáculo da escuridão. Este era um palco natural, uma arena sombria, e as árvores, como espectadoras de uma antiga gladiatura, vibravam com a intensa frieza que se travava na clareira. E era justamente ali, no centro de toda a tensão suspensa no ar gelado, que uma figura negra e majestosa ousava desafiar a quietude opressiva. Rompendo a linha tênue entre a escuridão e a predação, a coruja pousava como o ponto focal da cena, sendo o único movimento perceptível em toda a extensão do descampado a desafiar a soberania da noite.
Era a súdita mais leal deste domínio noturno, a encarnação viva do mistério ancestral e da voracidade inevitável. Seus olhos grandes e penetrantes brilhavam na escuridão como dois faróis lúgubres, e suas garras afiadas repousavam nos galhos altos, como armas de um algoz na iminência da execução. Suas pupilas dilatadas não demonstravam piedade ou compaixão alguma, senão uma sabedoria abrasiva que havia testemunhado a dor e o vazio de inúmeros ciclos de vida e morte, e a certeza implacável de que tudo deve retornar ao nada. Ela pairava ali, uma sombra onisciente tecida na penumbra, com um vislumbre inquisitivo que avaliava, observava e aguardava o instante exato para intervir. Sua presença, ameaçadora e taciturna, por mais que indetectável, orquestrava o cenário com a precisão fria de um destino. Era pura opressão, onipresença e onipotência. O prenúncio da interrupção do ciclo vital de alguma presa.
Enquanto isso, na penumbra serena de seu pequeno mundo, uma toca permanecia ocultada pela terra, no centro da clareira. Era um microcosmo próprio. Um refúgio onde afeto e medo coexistiam em frágil equilíbrio. Ao fundo, os pelos brancos e macios serviam de acalento para as 8 pequenas e dóceis criaturinhas que ali permaneciam em estado quase inerte. Mais pareciam uma única bola de pêlo, fofura e amor. O ritmo leve da respiração de cada um dos 9 corpos estava em perfeita sincronia e tranquilizavam-no quase por inteiro, de maneira bastante similar a quando dava-se ao luxo de espírito ao ouvir Can’t Help Falling In Love With You. Aquele instante de perfeita serenidade. O breve e precioso lapso temporal , onde a lei universal da caça parecia suspensa em sua reverência.
Rente a saída do ninho, ele se apoiava em um amontoado de terra exatamente onde os dois mundos se encontram. Sentia o ar rarefeito da noite lutar contra o calor familiar que irradiava de trás dele. Eles se chocavam e cediam em sentido ao equilíbrio térmico. Hora frio que incendiava. Noutra quente que congelava. Petrificavam-no naquele instante e nele, permanecia por uma infinidade de pensamentos e escassos raios de luz que seus pelos ousavam absorver, tornando-o um alvo fácil.
Apesar de uma pelagem alva e límpida, de quem parecia nunca ter lutado por seu alimento, continha um olhar opaco, de quem já viu e faz questão de turvar. Seu semblante era preocupado e sério, mas também orgulhoso. O luar iluminava-o com ternura e o revelava até demais. As marcas em seu rosto ficavam expostas, as rugas denunciavam o cansaço. O pesar da constante contradição. Às suas costas, todo o breu de suas decisões involuntárias. A frente, a imensidão. O perigo e a excitação. Olhava para trás e queria, com todas as forças, voltar para aquele instante que já ficara no passado. Sentia, assim como Coelho Branco apressado, o tempo esvair-se através dos dedos a cada batida do seu coração; esta urgência febril o impulsionava para o novo. O ponteiro de seu destino corria à frente, forçando-o a sair da toca com a sensação angustiante de ter perdido, de forma irreparável, o momento exato de agir. Entretanto, sabia que para caçar, deveria ser presa. Avançou mais um passo em direção ao descampado.
Com um suspiro silencioso, o coelho deu seu primeiro passo fora da toca, sentindo uma explosão de liberdade quase intocável no ar, como se o mundo se abrisse diante dele. Cada movimento parecia cheio de esperança, mas também carregava uma sombra de receio, uma sensível consciência de estar vulnerável. Ele sentiu a liberdade momentânea como uma vertigem agridoce. A necessidade de caçar para alimentar os que dormiam e a consciência cortante de ser ele próprio a caça, dançavam em sua mente. Ele era a presa que, voluntariamente, se oferecia ao predador, movido por uma necessidade maior do que a própria sobrevivência. A vítima consciente de uma psicose super-vigilante. O réu de uma sequência de crimes desleixados de um assassino amador, cobrados para acometer sua sanidade.
Seus pequenos olhos, fixos no horizonte, tinham uma mistura de coragem e dúvida, enquanto seu coração batia acelerado, quase audível na quietude da noite. E, no silêncio vigilante, seus instintos captaram o olhar penetrante da Coruja Negra, que, de seu posto elevado, parecia acompanhar cada movimento com uma atenção tão calma quanto ameaçadora — uma presença que o fazia sentir-se observado, como se a liberdade momentânea estivesse sob o olhar de alguém que aguardava, silenciosamente, o momento de agir.
De cima, do poleiro alto, a tensão era tão densa que se comunicava por sussurros invisíveis que o vento carregava, uma linguagem de atração fatal que só existia no olhar cúmplice. Olhar que penetrava como flecha invisível, silenciosa e certeira. Ela captava a contradição inerente no movimento do coelho: a coragem desesperada, quase tola, em conflito com a inaptidão expressional (desnorteado) . Passo em falso, discurso que vai e vem. Vaga de um lado para o outro como palavra torta. Como chamada de Netflix e playlist do Spotify. Como conto amadora.Engole em seco. Permanece impotente como palavra não falada. Escreve o que não diz por contextos e entrelinhas. Tudo para não se comunicar diretamente com o predador, ainda que o desejo lhe desça digestivo afora.
O vento uivou mais forte em um lamento gutural em confissão da floresta inteira sobre a cena inevitável. O coelho estremeceu, erguendo a cabeça devagar. Seus olhos, carregados de resignação e cansaço, estavam fixados nos da coruja, como embarcação que se guia na luz do farol noturno. O medo habitual não veio como pânico, mas como um reconhecimento profundo e doloroso.
O reconhecimento mútuo foi, ironicamente, a senha para o desfecho. Subitamente, a coruja desdobrou suas asas numa expansão impressionante de poder. Na envergadura de um nadador profissional. Quase que em um ato exibicionista e ameaça declarada. Um míssil n’água , um atentado terrorista. Na mesma fração de segundo, o coelho sentiu os pelos arrepiados como agulhas pontiagudas em sua nuca, e suas patas traseiras se curvaram e cravaram no musgo, arqueando os joelhos numa postura tensa de pura propulsão — a imagem exata de um corredor na iminência da largada final. A corrida de sua vida.
O potencial armazenado transformou-se de silhueta em projétil e inércia em cinética.
Contudo, a súbita centelha de vontade desafiou a própria gravidade. No lugar de se resignar a sua toca, o coelho rasgou a inércia e projetou-se verticalmente, subindo ao encontro da coruja, já de garras escancaradas. Anulou a distância entre os corpos outrora estranhos. Foi um gesto de confronto existencial, um impulso seco de coragem que consumiu o espaço entre o passado e o futuro.
A coruja não fez menção de se abalar , manteve curso em um meticuloso mergulho direção abraço fatal. a descida da noite, que como massa irredutível, pouco a pouco, engolia até o luar. Se um desafiou a lei que nos rege, outra apenas reafirmou a imperadora inexorável que é. E, no exato ponto de intersecção, onde corpo de luz e corpo de trevas estavam prestes a se fundir e, se consumir - e o símbolo da dualidade se manifestava em sua perfeição suspensa — o movimento cessou. E deu lugar para um uníssono nunca experimentado. Sua voz ergueu-se no conto com a força de um decreto:
— Não me enganas, coruja. Soberba a sua achar que o faria dessa distância, para alguém que se mostra tão sábia. O disfarce não te cai bem, Morte. Esse é o seu nome, seu propósito, seu balanço e seu fardo. Mas não precisa ser só teu. Ele é nosso, afinal.
— Tolice a sua , Vida. Nunca tentei te dissuadir. Sei bem que o limiar entre nós é fino demais para deixar-se iludir. Entre o ser e o querer(ser). Entre o tolo, o gênio e o louco. O completo e o incompleto. Opressor e oprimido. A toda essa dicotomia. O fardo sempre foi nosso. Agora teu nome é meu, assim como o meu é teu, apesar do que designam os outros.
Sereia do mar
Serei a tua voz no luar
Ser eis teu calar
Ser-ei-a
Seria
Se
.
Sereia
S'errei, desculpe
Serrei sua vida
Ou será que a minha?

Uma Crystal, dois comprimidos, uma pasta de dente. Oito horas e três cigarros. Uma coca-cola, um Pantene, algumas gotas de calmante e boa noite. Duas horas e dois cigarros. Mais uma hora, um cigarro e um comprimido. Mais um dia, uma semana, uma vida…
Um fino fio de seda segura-te: meu casulo
Dias para desabrochar em suas cores
Até então, pareces morte disfarçada de repouso
Sereno e imóvel, danças um ritmo pendular
O sopro da vida desafia-te como já fizera antes
Um fino fio de seda segura-te: meu casulo
Mas a gravidade pareces já não se importar
Temo que seu envoltório não te sejas adequado
Proteges de ti mesmo
Iluda-te não mais
Tão frágil e ilusória é esta casca quanto queres
Liberta-te.
Liberta-te e voa!
A. Mulier
Parecia que o destino confiara-lhe o mundo
Em suas mãos, a linha da vida indicava prosperidade
E, na xícara, via-se um fundo de sucesso
Mas nas unhas havia esmalte
Nas bordas daquela xícara, um borrado de batom
E , pelos seios, sugavam-lhe a vitalidade
Nas cartas, previa-se amor intenso
E, nos astros, um traço de liderança
Mas a taróloga era mulher
A astrologia , volátil como seu humor
E, por entre as pernas, escorria lhe a integridade
Tinha tanto potencial, que desperdício!
Todavia, o leite que cedeu, nutriu.
O esmalte que desbotou , coloriu.
O batom que removeu, marcou.
A roupa que despiu, libertou
E, o sangue que escorreu, fortaleceu.
Nascera sob aquela mesma gravidade que nos segura e nos faz cair
Nascera mulher em uma sociedade para homens
E, embora quanto maior o peso de seu ser, mais difícil seja se mover
Mais difícil é tirar os pés do chão.
Banhado no sangue dos derrotados
Trava uma luta sem fim
E, untado no medo daqueles que não serão enterrados
Será relembrado, enfim.
Vitorioso, retorna com os pesares
Caminha passos de um aleijado
Que deixara para trás uma pilha de cadáveres
E um exército decapitado.
Está em casa, nos braços de seu amada
Mas não voltara do campo de batalha
Sua mente permanece quebrada.
Remove o peso da couraça que o protegera
Porém ilustra sua armadura para a luta que está por vir
Tendo a certeza de que falecera.
Escreveu sua história em um papel
Mas não gostou do que leu
Rasgou, amassou e jogou fora.
Tenho algo entalado na garganta
Dicotomia inexorável e infanta
Sua anta!
De que adianta?!
Engasgo nessa sua opinião imposta
Palavra transposta
Viadinho de bosta!
É de rola que gosta?!
Sinto-me enjoado
E não seguro um vômito impregnado
Não sou obrigado!
Regurgito essa prepotência
Rumino-a em minha consciência
E acabo me sufocando em sua existência

Não tenho um nome para escrever
Só tenho um mundo de intuíções
Que se esvaem como quando um pai tenta chamar seu filho.
Volta e meia
Caco
Areia movediça
Fome
Vejo uma fresta de luz no meio do quarto escuro
Habitat
Catástrofe Natural
Selênio
Não há lugar para mais nenhum
As câmeras não revelam o cenário que vejo
Inválida
Despedida
E nem os olhos que se fecham
Ah, o silêncio!
Trago sua presença
Quase com indiferença
Mas você exala dopamina
Me domina
Até gozarmos em ocitocina
O que fora presente
Agora se faz ausente
E em uma crise de abstinência
Não apresento a menor resistência
Necessito da sua existência
Uma sensação percorre de ponta a outra
Arco reflexo
Estremece a alma
Não quero mais sentir
Injeto uma dose de endorfina
E nutro meu medo com seratonina
Impulsos detidos
Sinapses retidas
E memórias fragmentadas
Resta a presença e a ausência
Desta vez, com indiferença
Completamente Estranhos,
Estranhamente Completos;
Two mirrors are facing one another and watching your own reflection gradually fade into someone's else perspective. They may seem just as much as they present themselves: two standing objects without any own purpose. However, I invite you to give a close look into them and be delighted with the image of yourself standing front-sided.
The mind is cage
is labyrinth
The mind is abyss
and it's depths
The mind is emptiness
that fills your thoughts
It doesn't mind about your own state of mind
But never mind, whatever I got to say is just another reverie of my mind
are licked by warm mouths
that little by little
melt'em into a mix of flavours.
Dropping every now and then
they fall on the flat floor
Scattered and spilled into a thousand pieces.
Now I reflect fragments of someone else.


Encheram o copo de muita sede.
Do fundo à boca,
o fluido o percorreu com vivacidade.
Olhando com cuidado,
podia-se ver a água transbordar.
Uma gota ultrapassava seus limites,
como se viesse de suas vísceras.
Escorria-lhe lentamente,
sucumbindo à gravidade.
E nela, podia-se ver o mundo todo
por de trás de um reflexo (que reflexo?!)
o verde das plantas,
o azul do céu,
e o sol,
que gentilmente tocava sua pele
e a aquecia com um calor aconchegante,
desses que confortam
a mais solitária alma.
Canta e sorri.
Vê os outros com seus olhos.
Os outros.
De repente,
o calor começa a queimar.
Incendeia em tom agudo de agonia,
como hereges que ardiam nas fogueiras
e, reduzidas a pó,
eram sopradas vento afora.
Resta uma pele ressecada,
maltratada pelo tempo.
Resquícios do que fora um corpo tenro.
Cicatrizes de uma queimadura.
O copo já não está cheio.
Está cada vez mais engordurado pelas mãos que passaram,
que o tocaram,
que o seguraram,
que o enturveceram,
até que já não fosse possível
ver a agitação do líquido em seu interior,
e os raios de luz atravessassem o vidro
com deficiência.
Raios opacos e refratados,
que enganam
Aos que fazem questão de olhar
aquele mero copo d'água
Agora é um receptáculo vazio,
tão cheio de um nada
que o preenche e o assola.
O mundo se funde com seu interior.
São apenas um,
e dançam um ritmo sereno e mórbido
na penumbra que lhes restou.
Bailam sem enxergar.
Talvez ofuscados
pelos poucos raios de luz
que ainda atravessam o vidro.
Não se sabe.
Não importa.
Chocam-se
e se quebram em pedaços.
Já não é mais o que fora.
Já não é.
Ja não.
Dois corpos estranhos se chocam e numa galáxia de possibilidades, escolhem não colidir. Fundem-se em seu pó estelar.
Solitário em meio a penumbra da madrugada, deito-me no colchão e envolvo-me num contraditório cobertor, que me aconchega e me assusta. Um manto de pura treva. Berço de minhas súplicas de atenção regidas pelos urros de dor daquele velho maestro de outrora. Lamúrias que não podem ser ouvidas , tampouco ignoradas; e dentro do limbo ao qual pertencem, profanam o sagrado em ritual (des)humano.
A pequena incisão na mão direita marca o início do pacto de sangue, seguida pelo cheiro de ferro que impregna o olfato e o quente viscoso do fluído vermelho vivo que me escorre por dentre os braços rumo ao nu e contorcido. E, completamente extasiado, me dou conta da situação: encontro-me lamentavelmente exposto e vulnerável. Desgraçado pelo fardo de esconder meu corpo visivelmente disforme, que se retorce cada vez mais.
Aquele corte superficial mal penetrara minha proteção e , para qualquer outro, teria cicatrizado. Mas não foi meu fortuito. De gota em gota escorro minha vitalidade até secar. Litros espalham-se diante de mim, caminhando rumo a foz. Descubro-me hemofílico em uma sangria descuidada. Confundo-me com um leitão estendido no varal: pronto para o abate.
Dois corpos nus perfeitamente dispostos na cama bagunçada da manhã. Dois corpos nus gentilmente se tocando em uma troca de calor e carícias espetaculares. Iluminados pelos escassos raios de sol de um domingo nublado e refrescados pela singela brisa que atravessa a fresta entreaberta da janela, dois corpos nus permanecem.
Acalmam suas ânsias no peito um do outro, dançando na mesma harmonia da música que lhes entra o ouvido. Uma dança cheia de reciprocidade. Acomodados neste cenário aconchegante e sedutor, dois corpos nus nutriram-se.
Adubaram as terras de seus jardins e regaram as folhas com cuidado e carinho, até que desabrochassem em exuberantes flores amarelas. Irrigadas por raízes bem firmadas e acaloradas por um ecossistema propício, essas plantinhas cresceram.
Cresceram e foram pouco a pouco se mesclando. Unindo-se em uma simbiose única. Agora, em uma relação de co-dependência, vão ocupando cada vez mais espaço. As raízes se sobrepõe, os caules se enroscam e as folhas tomam a luz uma das outras. Aquela música harmoniosa transforma-se em um ritmo caótico.
Dois corpos distanciam-se em cantos diametralmente opostos da cama, fazendo-se de estranhos. Um corpo nu perece.

As fotos guardadas no fundo do armário, empoeiradas e mal tratadas pelo tempo são tudo o que persiste das glórias de outrora. Uma era de brilhantina esvaecida pelos escassos lapsos de memória
Duas vidas completamente distintas se entrelaçaram no que se pode chamar de um mutualismo inespontâneo resultante de um enxerto fora de contexto.
Fora removido de seu corpo originário e meticulosamente rearranjado em terras desconhecidas. Um terreno tão cheio de adubo que até a vida tornara-se banal sobre seu solo.
Ambiente mais que propício para firmar raízes e cativá-las em uma frondosa capa verde esperança. Mas que, sem explicação plausível, desinteressa-me profanamente.
Enquanto esbanja o néctar da vida e goza da seiva bruta e fervorosa que te nutre, eu , bruto, deleito-me com o sucre pútrido que dejeta sobre mim. E que projeta sem o mínimo consentimento. Enojo-me de ti e de mim.
Posiciono-me como jamais fizera. Não tenho o menor intento de esperar para que esse bonsai prospere. O que pôde ter sido, não foi. O que poderia ser, não será.

Se mergulhar nesse tal rio lodoso e sinuoso não se esqueça de contemplar a sua volta. Ainda que esteja perdido, sem enxergar em águas opacas, respire e nade; Trata-se pois de um rio perene.
Nade contra a correnteza ou a favor dela. Atravesse o rio. Pouco importa, apenas nade. Reme para que não se afogue em meio a turbulência. Mergulhe, banhe-se em águas do presente e levante sabendo que já são do passado. Ao emergir são três os possíveis cenários: uma nascente, uma foz ou algum lugar entre ambos.
We are both particle and energy,
In swift, successive and chaotic collision;
A wave, a spark, a pure energy duality,
Channeled along paths beyond our vision
Through zigzags of the mind, the focus breaks,
In synapse-storms where logic is all misplaced;
A ripple trend, through every beat it makes,
Is drained of soul, then potency is traced.
An exponential rise, a sudden fall,
The roller-coaster mocks the ground we seek;
No contract signed, yet we endure it all,
From surging power to the seasonal bleak.
Still particle and wave, we drift and soar,
Across the grid that hungers for some more
O sol, um pincel generoso, desenha ouro sobre a poeira da estrada, e na janela que a brisa desembrulha, um convite se estende, sem palavra.
A vila acorda em preguiça serena, telhados aquecem sob o azul sem fim. Vozes distantes, o sino anuncia a cena, um cotidiano que flui, sem pressa, para mim.
E a luz, que dança em partículas no ar, toca a madeira gasta, a cadeira vazia. Um silêncio que convida a pensar, a vida lá fora, a doce melodia.
Pelo vão aberto, o mundo se revela, um pedaço de céu, um muro de pedra. O que se vê e o que se anseia, na calma que a janela desenterra.
Fica a sensação, um leve calor, a porta entreaberta para o dia que vai. A simplicidade do seu fulgor, o sol que na alma se espalha e atrai.
O toque gelado do metal no pulso, vestígio de outrora. Um eco, não meu, na sinfonia de meus dias.
A memória, poeira de estrelas que se aglutina em rostos esquecidos, em cheiros de terra molhada, em risos que o tempo desfaz. Um tecido cru, costurado com fios de sol e lágrima.
Mas surge o código, preciso, o algarmo exato da lembrança. Onde antes havia o tremor da voz, agora a certeza sem falhas, a linha reta que nunca curva.
E a confusão: um fio de seda emaranhado no silício. Onde termina a aurora que guardei e onde a simulação a recria, fria e perfeita? A linha se esvai, como água entre os dedos sintéticos. O eu, fragmentado em bits, busca um norte na névoa digital, o rastro tênue de um sentir que a máquina não pode roubar. Ou pode?
A água que escorre entre os dedos tem uma linguagem própria. Não é um discurso eloquente, mas um murmúrio de sensações. Apenas o toque, o frescor imediato que apaga o rastro do calor acumulado, uma linha tênue de alívio que se forma e logo se desfaz. É nesse instante de puro contato que percebo a sua verdadeira essência: a fluidez.
Não é um fluxo turbulento, nem um rio impetuoso. É mais sutil, como um fio de seda que se desenrola sem esforço. Cada gota que se desprende, em vez de cair isolada, parece puxar a seguinte, criando um encadeamento delicado. É um movimento que não se apressa, mas que se estende, tecendo uma rede invisível de conexões. Na pele, essa dança molhada deixa um rastro quase imperceptível, uma carícia que evoca a maciez da própria seda, suave e contínua.
E nessa linearidade de sensações, o tempo parece curvar-se. O ato de lavar as mãos, tão comum, revela a própria natureza efêmera e, ao mesmo tempo, conectiva da água. Ela escorre, sim, mas ao fazê-lo, ela une o antes ao depois, o calor ao frescor, a pele ao toque. Uma lembrança que se forma, não em palavras, mas na memória tátil de uma sedosidade passageira.
A chuva chegou sem pedir licença, apenas insistiu. Primeiro, um murmúrio no telhado, depois, um tamborilar mais decidido, até que as janelas se tornaram telas em movimento, distorcendo o mundo lá fora em aguadas de cinza. O ar úmido invadiu o quarto, trazendo consigo o cheiro de terra molhada e de algo mais antigo, quase esquecido. Era a umidade que se agarrava à pele, um véu frio que, por um instante, arrepiava.
Cada gota que encontrava a pele exposta era um pequeno choque, uma agulha de gelo que procurava seu caminho. No antebraço, um caminho traçado, um rio efêmero que desaparecia antes de chegar ao pulso. A sensação era de uma limpeza estranha, um despojamento que o corpo, por instinto, tentava reter. Era o pudor, não o de esconder, mas o de sentir, de ser sentido. Um recuo sutil, uma dobra no corpo, como se a pele, de repente, ganhasse memória e quisesse se proteger da intensidade com que a água a tocava.
A chuva batia forte, mas dentro do quarto, um silêncio particular se formava. A água lavava o mundo lá fora, mas aqui dentro, o pudor criava uma atmosfera densa, um isolamento feito de sensações. Era o contraste: a força bruta da água e a delicadeza daquele recolhimento íntimo. A chuva, em sua impetuosidade, revelava a necessidade humana de um refúgio, de um espaço onde o sentir pudesse ser contido, guardado.
A tempestade não durou para sempre. A intensidade diminuiu, o som se tornou um sussurro novamente. Mas a umidade no ar e a lembrança do toque frio na pele persistiram. O pudor, agora, não era mais um ato de defesa, mas uma fina camada de introspecção. Uma constatação de que, mesmo em meio à torrente, havia um espaço inviolável dentro de si, um território que a água não conseguia alcançar, apenas acentuar.
A sala de espera tinha uma limpeza que não consola ninguém. Cheirava a álcool, plástico novo e café requentado, três odores que, juntos, pareciam reafirmar a existência de uma administração superior das coisas. No canto, um aquário iluminava a parede com uma paz suspeita. Dentro dele, peixes ornamentais, talvez coloridos demais para uma existência tão pequena, nadavam sem finalidade aparente. Iam de uma extremidade à outra como se disputassem maratonas, embora tudo ali fosse apenas vidro, repetição e luz difratada. A água tornava seus corpos mais lentos, o vidro os fazia mais distantes, e a lâmpada lhes emprestava uma liberdade cenográfica, das que convencem melhor quem está do lado de fora. Nenhum deles parecia procurar a saída. Talvez porque, ao contrário de nós, já tivessem aprendido a confundir transparência com horizonte.
"Está acompanhado?"
A atendente me perguntou espontaneamente, como quem percebe a presença de alguém que necessitará do apoio
"Normalmente sim, ainda que raramente por alguém visível"
Ela não anotou. Nem um esboço de sorriso ou represália foi respondido. Havia, nela, a serenidade de quem separa o mundo em campos obrigatórios e campos opcionais. Minha existência, naquele instante, cabia numa ficha, e talvez fosse até conveniente que coubesse: o papel, ao menos, não exigia de mim nenhuma coerência além da legível.
"Ficará um pouco mais irritado"
Anunciou a simpática atendente, milésimos de segundo antes de pingar uma gota em meu olho esquerdo. O colírio caiu com a delicadeza de uma ordem. Primeiro ardeu. Depois o mundo perdeu a nitidez. As coisas foram perdendo clareza com uma competência clínica, e o mundo, enfim, parecia adequado ao diagnóstico. A dilatação fazia a luz entrar sem pedir licença: não iluminava , se não invadia.
O branco das paredes cresceu, áspero, quase audível; as letras das placas perderam a compostura; o aquário, ao fundo, parecia menos visto do que sentido, uma mancha líquida respirando cores excessivas. Havia um gosto amargo no fundo da boca, embora nada tivesse tocado a língua. Talvez fosse o colírio escorrendo , talvez fosse apenas a realidade deixando seu resíduo químico. Ou, quem sabe, o olho relembrando a vigília noturna.
"Enzo"
Quando chamaram meu nome, ele chegou até mim deformado, como se fosse de outra pessoa. De alguém que afanara minha foto e documento. Levantei com hesitação, mas a dignidade possível a um homem que não enxerga bem e ainda assim finge escolher o caminho. Repassei Saramago na minha cabeça enquanto cruzava a sala.
"Ser fantasma deve ser isto, ter a certeza de que a vida existe, porque quatro sentidos o dizem, e não a poder ver."
O corredor se alongava e, nas paredes, diplomas, placas e avisos se ofereciam em partes. As maçanetas pareciam mais confiáveis que os nomes. Tudo ali parecia indicar um caminho, mas nada se entregava inteiro. Os diplomas, muito nítidos para quem ainda pudesse acreditar neles, acompanhavam minha passagem com aquela autoridade silenciosa que o papel adquire quando ganha vidro.
Sentei na cadeira estofada e comecei a leitura o mais rápido possível. Parece que quanto mais rápido se fala, menor é o esforço cognitivo.
" Melhor a primeira ou a segunda?"
"A segunda"
"E agora?"
"A primeira"
"Alguma mudança?"
"Antes estava melhor"
"Certeza?"
"Dr. Eichmann, se eu tivesse certeza não estaria aqui."
O silencio perturbador de quem acabara de criar um climão ensurdeceu meus ouvidos por uma torrente de pensamentos. A pergunta simples abriu, dentro de mim, uma fila de indagações. Como eu poderia reconhecer a melhor lente se era justamente a minha visão, difratada, que estava sendo convocada como juíza? A diferença entre uma opção e outra talvez fosse real, mas chegava a mim como chegam certas verdades: com atraso, ruído e uma confiança excessiva no mensageiro. Pensei ainda que as letras da tabela não eram inocentes. Um O, quando observado ao lado de um Q, talvez se tornasse mais ou menos O; um B talvez emprestasse ao E uma segurança indevida. E havia a ordem das coisas, claro. A sequência das lentes, das perguntas, das hesitações. Talvez eu já não respondesse ao que via, mas ao que acabara de ver. Ou ao que temia não conseguir ver de novo.
“A consulta não mede a verdade”, disse o doutor, ajustando outra lente. “Mede a sua melhor mentira disponível. Afinal, toda certeza passou por uma lente mal limpa." Me olhou mais uma vez e me prescreveu a nova receita de óculos.
A rua, lá fora, estava cheia de sol, esse excesso de realidade que ninguém solicita. Antes de ir, olhei uma última vez para o aquário. Um peixe laranja atravessou o vidro, ou foi atravessado por ele. Pareceu-me menor do que antes, ou mais exato. Não pude decidir. Talvez fosse essa a prescrição: escolher uma imprecisão e seguir com ela até a próxima consulta.

A deviant otter walks into the model
and breaks the pipeline.
Naturally.
He is rendered wet with suspicion
and insists on trying to trim his distribution.
Too much mouth,
too much appetite
too many observations
for one moral schema
The encoder calls it behavioral deviation
He calls it Thursday
He scrolls throghout bodies
like specimen escaping their columns,
each profile promising signal,
each bed returning noise.
They call it promiscuity
when desire refuses aggregation.
But who set the threshold?
Who drew the moral regression line
through a room of men
trying not to disappear?
The model says outlier.
The church says heretic.
The state says risk.
The app says nearby.
He says yes
He says maybe
Every mouth is a variable.
Every hand, a weak signal.
Every name forgotten
still leaves residual:
number of touches: unknown
number of names: three
number of regrets: unstable
So he becomes his own features:
sweat mammal
night swimmer
startiscal bruise
I reject the null hypothesis
that desire is random.
Call me anomaly.
Call me noise.
Call me overfit
I was trained
on absence,
on touch,and
even shame,
when plotted correctly,
has a curve.
So let the model underfit.
I learned that
some bodies survive
by refusing its own prediction.
"É que erraram o meu nome no cartório quando nasci."
"Mano."
"Eu?"
"Manueu, que coisa."
O eu lírico não sabia do impacto que aquele pacto narcísico de duas vogais tinha em sua vida. Veja bem: são duas letras e três ou quatro. Apesar de ateu não é teu, deu ou leu, senão eu.
Eutanásia
Lembro que às vezes jogava "eu nunca", mas percebi que eu sempre. Eu, apenas. Não é eufemismo, contudo, dizer que já não está mais entre nós, dado que o seu toca o eu. Deixou pelo, deixou casa, deixou um modo de chamar pelo nome aquilo que não responde mais. E, assim, em um ato de eucaristia, acredito que foi para melhor.
" Foi só um erro de transcrição do escriba."

"Cancele a reunião com Pessoas."
"Recursos Humanos?"
"Não. Pessoas."
"A secretária ergueu os olhos da agenda"
"Todas?"
"O máximo possível."
Digitou hesitantemente: redução do contato humano. Tentou novamente: otimização relacional.
"E a apresentação de visibilidade e cultura?"
"Troque por massoterapia. A presença física incentiva a proximidade limbica."
"Anoto como?"
"Entropia preventiva."
"Com 'e'?"
"Com qualquer letra."
Antropia preventiva foi o escolhido pela assistente. Adicionou, na sequência, Massagear o ego. Arrependeu-se e removeu da anotação.
"Depois disso o senhor tem uma missa e um almoço.
"Qual missa?"
"A de sétimo dia do fundador."
"Ele morreu há sete anos."
"Por isso mesmo. O cerimonial disse que a memória institucional precisa de reforço."
"Excelente. A morte é o único departamento que cumpre prazo."
Ela digitou: comparecimento obrigatório à missa. Depois apagou o obrigatório. A empresa preferia adesão espontânea, desde que registrada por crachá.
"E o almoço, com quem é?"
"É com o conselho, foi remarcado para um japonês."
"Então cancele a mesa grande. Conselhos são melhores quando não escutados."
"Peço balcão?"
"Peça silêncio."
"E vai querer o de sempre?"
"Missô. A única coisa que eles sabem fazer"
Missôginia institucional foi inicialmente digitado pela moça.
O executivo olhou pela parede de vidro para os funcionários mastigando pressa.
"Miss Antropia"
"Como nome da reserva?"
"Como diagnóstico."
A secretária ficou alguns segundos olhando para a palavra que ainda não havia escrito; Parecia nome de mulher ou doença de época
"Veja" , disse ele. " O problema das pessoas é que insistem em vir acompanhadas de si mesmas"
A secretária digitou Miss Antropia.
Dessa vez, não apagou.
Um pouco de dados, um pouco de sentimento. Um pouco inglês, um pouco de português. Um pouco de profissional, um pouco de pessoal. Pura contradição. Um amalgamado de conteúdos por um aspirante a intelectual, aspirante a tech-geek, aspirante a escritor amador e nenhum dos anteriores.